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Publicada em 28 de fevereiro de 2016 - 11h 33
Opinião - Um bloomberg brasileiro

Revista Veja - 22/02/2016

Geraldo Samor

A disposição de Michael Bloomberg de concorrer à Casa Branca deveria provocar uma pergunta tão oportuna quanto sensível no Brasil: qual é o papel dos empresários na política brasileira?

Bloomberg está pensando em se candidatar porque a campanha presidencial americana está dominada pelo extremismo nos dois principais partidos: o Democrata, com Bernie Sanders, e o Republicano, com o religioso Ted Cruz e o franco-atirador Donald Trump, cujos notórios problemas de temperamento não combinam bem com o acesso ao botão nuclear.

No Brasil, a política não sofre com o extremismo (ainda), mas com a criminalidade endêmica e a incompetência generalizada. O Executivo e o Legislativo estão há muito dominados por gente que nada entende de economia e cuja prioridade é sua própria reeleição. Boa parte dos congressistas responde a processos, e a classe política está mais desacreditada do que nunca.

Tendo em vista o estado da política tradicional, o que aconteceria se pessoas que já estão com a vida ganha e não precisam provar mais nada a ninguém se candidatassem ao cargo mais alto da nação, gastando não o dinheiro das empreiteiras, mas o seu próprio (obviamente, no limite do que a legislação permite)?

Pense, por exemplo, num Edson Bueno da vida. O menino pobre e interiorano construiu ao longo de décadas a maior empresa brasileira de medicina de grupo, a Amil, e demonstrou timing perfeito ao vendê-la, ainda em 2012, por mais de 6 bilhões de reais. Considere também um Salim Mattar, que transformou uma pequena locadora de veículos em 1973 — com seis Fuscas usados e financiados — na maior empresa do ramo na América Latina. E o que dizer de um Abilio Diniz, que aos 79 anos parece ter mais energia do que todo o ministério de Dilma Rousseff?

Já imaginaram um empresário desses num debate presidencial? Enquanto os políticos tradicionais estão ali vendendo sonhos e traficando impossibilidades, o empresário está lá falando que as coisas não são tão fáceis assim, que não existe almoço grátis, e dando exemplos da vida real, desse desafio diário que é fazer crescer uma empresa no Brasil, em meio a impostos cavalares e a uma burocracia asinina. A desonestidade na política hoje é tão chocante que o eleitor provavelmente se encantaria com a sinceridade inédita.

O caminho de um empresário ao Palácio do Planalto não estaria pavimentado com rosas. O primeiro obstáculo a vencer é a ideia — tão brasileira — de que o empresário é um cara mau, que acumula à custa dos pobres. É triste admitir, mas essa é a narrativa que embala a relação dos brasileiros com o sucesso. Os adversários acusariam Edson Bueno de "se locupletar com a doença dos outros", e diriam que Salim Mattar "cobra mais do que a concorrência" (ele cobra, pois o serviço tende a ser melhor). Não quero nem imaginar o que diriam de um banqueiro.

O fato é que a demonização do empresário no Brasil é uma realidade política, como ficou claro recentemente, quando o envolvimento de Neca Setúbal na campanha de Marina Silva foi pintado pelo PT como sequestro mental da candidata pelos bancos (Neca é irmã de Roberto Setúbal, acionista e presidente do Itaú). Um grande executivo me disse outro dia que "cometemos um erro terrível: acreditamos que o pessoal em Brasília podia fazer qualquer m..., e nós continuaríamos tocando nossas empresas sem que uma coisa interferisse na outra". Com o agravamento da recessão e a crise fiscal épica, agora os empresários veem que as coisas não são bem assim.

Silvio Santos tentou uma candidatura de última hora (em 1989) e se arrependeu. José Alencar emprestou suas credenciais capitalistas a Lula, mas infelizmente não está aí para fazer uma reflexão. De forma geral, os empresários se limitam a ser financiadores de campanha (dando dinheiro a ambos os lados por medo de retaliação do vencedor), e, em alguns casos, se dedicam à interlocução privilegiada com o Planalto na tentativa de influir com boas ideias trazidas do setor privado. Realisticamente, a chance de um grande empresário brasileiro entrar numa campanha presidencial tende a zero.

Mas não custa sonhar com o dia em que os empreendedores terão um representante de fato no centro do palco do poder.